Neste episódio de Cinema Elysée, Anonio Sergio Elysée explora o filme Bugonia, do diretor Yorgos Lanthimos.

Bugonia, o espaço criado, o vazio da ideia e da criatividade.
Ao final, a confusão como vitrine de um gênero que aos poucos vai se construindo, a mistura de terror alucinógeno e sátira política.
As atitudes excêntricas de um personagem, Teddy, psicopata e gentil do terror, só explodem bizarrice, exatamente da questão primordial dos dias de hoje: o domínio da tecnologia sobre o homem.
Como todo filme americano que se preze, tem que voltar-se sobre si mesmo e impor o espetáculo da forma. Absolutamente desinteressa-se pela verossimilhança do argumento. E o roteiro, seu caldatário, vai com todas as armas que dispõe ao espetáculo. O mais grandioso, escaldado na importância dos contrastes, avermelhando as cores, história na sinfonia, na cacofonia do gênero que resulte.
A diegese, o cálice sagrado da linguagem das imagens, acaba se tornando escravizada de si mesma, na melhor tradução de um formalismo narcisista e, de outro lado, absolutamente que não sabe brincar com questões que não resultem em desvãos psicológicos e da palavra metafísica.
Um olhar do andar de uma ampla vidraça da Madson Avenil, estampada em um cenário grande, eloquente, de uma major company dos grandes estúdios. Olhe para cima o olhar confuso, inócuo, contemporizando com o poder. Enfim, todas as aventuras do homem americano vêm calcadas na força da individualidade, confortada na democracia que seu Estado garante. Agora se esfacelando de paranoia.
Mas, neste caso, a confusão só espalha o recanto da recuperação confortante. Mesmo quando o alienígena coloca o seu bastão sobre o mapa da Terra, tocando a última esperança.
Está lá fora a solução. Mas nem sabemos se este é um bom sujeito. Ao final, ele melhor será que os nossos daqui, mesmo que o filme resolva tornar os personagens contestadores em psicopatas malucos e a noção política vá para o espaço, literalmente.
A bizarrice toma conta do filme, desviando a questão em sonoridade barulhenta. E cada tomada enfatiza o grande passo da abundância retórica, cheia de fúria nos contrastes, e os personagens circulam outra dimensão, para não dizer outra galáxia, sem saber onde causa a questão.
A humanidade que um texto deve trazer fica com os pobres artifícios daqui, que ainda usem a crítica e menos a paranoia que vai virando estética do mercado consumidor, como as pílulas que o filme tenta vender de plano a plano, super inflacionado e em meandros às vezes inacreditáveis.
Antonio Sergio Elysée é ator, autor e empreendedor cultural. É o autor de livros como O Abduzido da Praça Ozório e Pandemônio em Curitiba. A partir de agora você poderá acompanhar semanalmente Antonio passeando pela história do cinema, as grandes obras e os grandes autores. Cinema Elysée é uma produção de Estúdio Cênico e NA-NU, com apoio cultural da Padaria América.
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