Cinema Elysée: Valor Sentimental

Neste episódio de Cinema Elysée, Antonio Sergio Elysée apresenta o filme Valor Sentimental, filme de 2025, dirigido por Joachim Trier

O abismo profundo que se forma para resgatar vidas exige boias de salvação que não afundem a primeira vaga que afoga, pois não dá tempo da última cena, que não dá tempo para o primeiro golfo de ar entrar. E assim quatro gerações de uma família vão recebendo os golpes em ecos dilacerantes confundindo o esparramo da água turva, que foi se formando o longo dos abismos do tempo para o golpe de ar puro que venha insuflar vida nova.

É uma casa antiga, auto retrato, em suas paredes, vai recolhendo os gritos e as lembranças grudadas valendo-se de seu tempo de presenta e passado como um bumerangue cinematográfico, para contar uma história em seus meandros tortuosos de sofrimento e solidão, de quatro gerações naufragando
neste mar de mágoas e desafetos impregnando vidas, jogando-as no limbo da defecção.

O pai causador da erupção abandona o lar, a mãe suicida e duas filhas depositárias do trauma da infância rejeitadas e abandonadas ao amadurecimento cheio de fraturas. Aí está o filme transcorrendo no plano da ficção, ancorado nestes fatos reais quando o pai, cineasta famoso, volta a casa depois de anos e quer registrar este drama, mas ele não vê a tragédia que vai lhe mostrar as sequelas e marcas em um roteiro esmagador: ele propõe filmar os papeis dos personagens querendo contar com a filha mais velha, agora estrela de teatro consumada. Claro que a distensão, logo no início, conta com o protesto da filha, que ele queria para o papel principal neste drama de força auto biográfico, que ele havia escrito especificamente para ela fazendo papel da filha, mas não contava com as marcas que causou em seus anos de distanciamento. O filme progride dentro deste retrato familiar escrito como fosse a busca de uma redenção, mas não contava com tamanha dose de dramaticidade causada pela própria vida. Este o tema do filme, de como a vida entra pela ficção e a enleva ou destrói. Quando usa uma atriz convidada que se esforça para fazer este papel cheio de peso acaba por submergi-la na densidade do personagem, a
impossibilidade oferece um dos momentos mais belos. Esta atriz confessa não entender, nem poder atingir a gama de profundidade que o roteiro pede. Então, o golpe definitivo que a vida ensina os personagens a rever este trajeto tortuoso, é atravessado pelo neto da quarta geração, mostra para que a filha entenda a sua missão de resgatar esta família dentro de um filme. Aí está todo recado. A vida costurando-se pelo apoio da arte de um filme que, emoldura estre retrato dramático como a boia de salvação de uma família, de um nome resgatado pelo singelo prazer do amor reconquistado na beleza de uma nova vida: o milagre do cinema.

A película com produção de 2025. Roteiro e direção de Joachin Trier

Antonio Sergio Elysée é ator, autor e empreendedor cultural. É o autor de livros como O Abduzido da Praça Ozório e Pandemônio em Curitiba. A partir de agora você poderá acompanhar semanalmente Antonio passeando pela história do cinema, as grandes obras e os grandes autores. Cinema Elysée é uma produção de Estúdio Cênico e NA-NU, com apoio cultural da Padaria América.

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