Cinema Elysée: A subjetividade de David Lynch

Neste episódio, Antonio Sergio Elysée explora a narrativa subjetiva e única de David Lynch, de filmes como Veludo Azul e Cidade dos Sonhos.

A subjetividade da câmera; do narrador, da terceira pessoa; o vácuo; o personagem interseccionado. O cromatismo e os elementos simbólicos exacerbados nos filmes. Os cortes abruptos; em outra direção. A construção narrativa que sofre soluções de significações no processo de continuidade.

Os dados de sadismo inequívocos nos filmes de Lynch, assim como em Tarantino, às vezes encostando no tratamento psicanalítico. Outras, na explosão do inconsciente puro com imagens soltas de delírio. Em outras ainda, entrando pelas narrativas e trazendo consequências para a história. O desejo e suas erupções, mesmo tratando de impulsos patológicos, mesmo compensatórios, mesmo fragmentados, compondo uma narrativa ilógica — ou seja, sem começo, meio e fim, no sentido narrativo tradicional. Em ambos há uma busca por identidade de gênero (em Lynch, a identidade forjada em todos os gêneros), criando um cinema especial, com marcas próprias.

No primeiro, há uma busca por uma cultura popular que pode ser encampada pelo cinema: a cultura pop, sobretudo visual, genuína, num país de surtos de violência. No segundo, apenas uma derivação de seus mitos próprios, seguindo suas referências pessoais, mudando os sentidos dos filmes de que gosta, suas aparições dos sonhos, quase sempre perturbadores e inquietantes.

David Lynch. Como se da flor da pele saltasse do corpo a ação dos acontecimentos, fossem grudados nas entranhas, exalando pelos poros num mesmo organismo inseparável. Esta morfologia dos fatos, irrompendo em um mesmo ser em movimento, fundidos nesta figura esquisita, cria uma mobilidade surpreendente.

Como se tivesse mais pernas que o necessário e entrasse pelos espaços contínuos colados em outra escala; braços longos que apanham objetos em dimensões diferentes; boca distribuindo mistérios em canções antigas remodeladas, criando efeitos de absoluto descompasso. Tudo se passando como se fosse na cozinha mais normal da vida diária faz desta constituição corpórea uma mistura de carne e delírios, nervos e convivência impressionante.

Uma criação extravagante, no entanto sem escândalo para a trama e para os personagens que vivem ali dentro, enquanto, para o espectador, tudo não passa de uma revelação anormal gritante, saturando e abrindo espaços inimagináveis de comportamento, confundindo a percepção e os parâmetros que desfilam em imagens inusitadas.

Um ser assim só sabe discernir sonho e realidade na mesma dimensão, vendo em sua parede, à frente, cimentando e quebrando, um buraco por onde passam sonho e realidade, delírio e pesadelo, nas composições de outras dimensões, de ações ora chocando-se, ora abrindo-se para uma estrutura mágica que pouco permite leitura em nossos códigos conhecidos.

Ou seja, é um monstro cheio de forma e inventividade, de outro tamanho e profundidade, recortando o quadro de cores e sons, de movimentos e relevos, andando e surgindo no mesmo plano, sobressaindo corpos colados como uma verruga que nascesse ali, grudada, presa e inseparável de sua feiura incompreensível.

Que às vezes pode ser bonita. Muito bonita.

Porque o conceito de beleza está em nossa cara: ver, diante de nós, com olhos de átomos circulando na mesma arena, com suas galerias e lances grudados no mesmo edifício, leva o indivíduo a transitar por estas dimensões. No entanto, dentro do mesmo plano, em uma rede de delírios perfeitamente “reais”, na mesma mente; isto é, abrir-se a outros planos de dimensões incomuns que estão na nossa frente.

Este corpo estranho, de cabeça, tronco e membros andando assim, é um filme de David Lynch.

O espaço saturado em múltiplas situações paralelas, mesmo que convergentes, estimula dimensões alheias: o sonho misturando-se à realidade, colados na mesma pele do mesmo corpo.

Nos filmes de Polanski é o personagem que está sujeito a mil esquizofrenias. Adentra através do cenário, onde surgem suas alucinações bem visíveis, com elementos coreográficos e extensões do corpo aumentando pelo foco das lentes da câmera, perfeitamente ajustada a situações-limite de tensão e alucinações do personagem, porém perfeitamente diluídas na imagem para o espectador, que nos planos as vê pela mente doente do personagem.

Em Hitchcock, os dados são postos à vista, embaralhados na mesma imagem como uma cortina de mil elementos, que vão desfilando e costurando a trama, por menos importantes que pareçam, sempre dados ao espectador para que vá deduzindo aos poucos e lentamente, criando o suspense.

Em Lynch, é a sociedade que é paranoica quando vê acentuar-se, na normalidade, as figuras da doença, exacerbadas em dimensões extraordinárias, dentro dos planos convergindo nos cenários, ações e elementos bizarros que invadem a vida dos personagens, misturando delírio e doença perfeitamente enquadrados na normalidade.

E, para isso, inventa a bizarrice das ideias e dos planos cinematográficos incomuns que cria.

A plasticidade é inquestionável, já que ele é um artista plástico e se demora na confecção dos cenários e nas ideias das tramas e dos personagens. Sempre conta com ótimos colaboradores nos roteiros, nos designs de produção e nos alter egos dos seus delírios, que os atores seguem na interpretação mais realista.

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