Por que o universo fantástico de Oz se tornou símbolo para a causa e comunidade LGBTQIA+ e qual a origem dessa relação? Confere aqui no NA-NU!

Por aqui no NA-NU já falamos bastante sobre a história do universo de Oz. O universo mágico de Oz possui uma relação profunda e duradoura com a comunidade LGBTQIA+. Desde suas origens na literatura infantil, a obra se tornou um símbolo que influencia o discurso de diversidade e identidade.

Um dos principais motivos para essa forte ligação é Judy Garland, que interpretou a protagonista Dorothy na clássica adaptação de 1939 de O Mágico de Oz. Garland já era uma celebridade adolescente e, ao longo de sua carreira, se tornou um ícone gay. Judy continuou realizando apresentações musicais até o fim de sua vida e ela tinha uma relação muito especial com seu público, que incluía muitos homens gays. Quando questionada por um repórter se isso a incomodava, ela respondeu: “Eu não poderia me importar menos. Eu canto para as pessoas”.
No livro My Beautiful Wickedness: The Wizard of Oz as Lesbian Fantasy (Minha Bela Maldade: O Mágico de Oz como uma Fantasia Lesbica), Alexander Doty discute como o filme e a obra de Frank L. Baum carregam elementos de excentricidade e artificialidade que podem ser interpretados como símbolos de identidade LGBTQ+. Doty comenta como a clássica adaptação de O Mágico de Oz de 1939, estrelando Garland, foi adotado como símbolo pela comunidade Queer desde seu lançamento. Mesmo para o público da época, era claro como os personagens dos “amigos de Dorothy“, o Espantalho, o Lenhador de Lata e o Leão Covarde, se utilizavam de arquétipos humorísticos populares nos anos 30 que representavam ou parodiavam o comportamento Queer. Como a maneira que o Lenhador de Lata chora, ou o Leão Covarde que se chama de “sissy” (termo pejorativo, algo como “afeminado”), afirma ser a flor Dente de Leão, e quando chega a cidade de esmeraldas, arruma seu cabelo igual ao de Dorothy, com direito à um laço.

“Em algum momento dos meus vinte e poucos anos, tomei conhecimento do conceito de ‘camp’ (“camp” em inglês pode ser usado como gíria, especialmente na cultura LGBTQ+, para descrever algo exagerado, teatral, artificial ou de mau gosto, com um toque irônico), os qual alimentou minha crescente apreciação ‘gay’ por O Mágico de Oz. ‘Camp’ finalmente me fez fazer as pazes com o Leão Covarde. Ele ainda era exagerado, mas não era mais um constrangimento total. Ah, eu sentia uma pontada nostálgica de humilhação de vez em quando (ainda sinto), mas no geral eu o achava fabulosamente ultrajante. Rei da floresta? Ele era mais como uma drag queen que simplesmente não dava a mínima. Por causa disso, ele parece ter uma bravura que a narrativa não lhe dava. A apreciação de ‘Camp’ pelo excessivo também me levou a reavaliar Glinda. Ela não era apenas parecida com uma drag queen, ela era uma! O artifício a envolvia como aquele vestido rosa (mas é claro) transparente que ela usava. ‘Quem melhor para guiar Dorothy pelo caminho da feminilidade heterossexual?’, pensei. (…) Há aqui mais do que um toque de excesso exagerado que finalmente parece expressar a feminilidade lésbica em vez do feminino heterossexual. E não nos esqueçamos de que, embora Glinda possa parecer uma fada madrinha, ela é uma bruxa e, portanto, está ligada à Bruxa Má e à associação cultural ocidental secular entre bruxaria e lesbianismo.” – Alexander Doty em My Beautiful Wickedness: The Wizard of Oz as Lesbian Fantasy (Minha Bela Maldade: O Mágico de Oz como uma Fantasia Lesbica)

O termo “Friends of Dorothy“ (“Amigos de Dorothy“) é uma expressão bastante conhecida nos Estados Unidos para se referir à pessoas gays. Existem várias teorias sobre sua origem, mas acredita-se que o termo esteja relacionado ao universo de Oz, especificamente à personagem interpretada por Judy Garland. Nos anos 40 e 50, homens gays passaram a usar esse código para se identificar discretamente, especialmente em épocas de repressão. Durante os anos 80, por exemplo, a Marinha dos EUA iniciou uma campanha para identificar e expulsar gays, que eram proibidos de servir. Isso levou a uma investigação em busca de “Dorothy“, pois acreditava-se que “Amigos de Dorothy“ era um grupo de gays infiltrados na força militar, protegidos por um suposto líder comunista com o codinome “Dorothy“. Obviamente, Dorothy nunca foi localizada, mas o termo permaneceu como símbolo de solidariedade e identidade.
Robert H. Hopcke afirma em seu livro Dorothy and Her Friends: Symbols of Gay Male Individuation in The Wizard of Oz (Dorothy e seus amigos: Símbolos da Individuação Gay Masculina em O Mágico de Oz) que “para o homem gay, os temas da persona no filme (O Mágico de Oz, de 1939) estão intimamente ligados ao outro tema mítico da obra, a relação entre masculinidade e feminilidade. Ao se reconciliar com Oz e encontrar o caminho de volta para casa, Dorothy consegue encontrar um ponto de vista de si mesma em um mundo onde nada é o que parece ser e todos têm duas faces. (…) Ao reconciliar os opostos de masculinidade e feminilidade, ao encontrar seu verdadeiro eu individual (…) Dorothy oferece mais para pessoas gays do que uma simples representação de um processo psicológico interno.”

(Essa próxima parte do texto contém spoilers do livro A Terra de Oz). Outra personagem adotada como ícone de representação da diversidade proveniente do universo fantástico de Oz é a Princesa Ozma. Ozma foi apresentada no segundo livro da série escrita por Frank L. Baum, primeira continuação de O Maravilhoso Mágico de Oz, A Terra de Oz. A história é protagonizada por Pip, um menino munchkin que vive sob a opressiva tutela de sua guardiã, a malvada bruxa Mombi. Pip escapa de Mombi e, em suas aventuras pela terra de Oz, toma conhecimento da Princesa Ozma, a verdadeira regente de Oz que desapareceu e teve seu trono ocupado pelo Mágico. Ao final da história (SPOILERS!) Pip descobre que ele, durante todo esse tempo, era na verdade a Princesa Ozma, que tivera sua memória apagada e fora forçada a viver como um menino pela malvada Mombi. A transição de Tip para Ozma, em Oz, não é visto como algo estranho ou reprovável, mas é celebrado.
Ozma não é uma personagem pequena na série de livros de Oz. Além de ser a rainha regente de Oz ao longo da série, Ozma é filha de uma deusa, tem poderes aparentemente ilimitados e vem a se tornar a melhor amiga de Dorothy. Ozma é também uma personagem importante do filme Retorno a Oz, continuação de O Mágico de Oz lançada pela Disney em 1985. Existem vários exemplos de personagens que se “transformam” de maneiras semelhantes ao longo de toda a série de livros. Mesmo em O Mágico de Oz, inicialmente o Mágico aparece como uma dama bela e assustadora para o Espantalho.

No livro Queer Oz: L. Frank Baum’s Trans Tales and Other Astounding Adventures in Sex and Gender (Queer Oz: Histórias Trans de L. Frank Baum e Outras Aventuras Impressionantes em Sexo e Gênero) o autor Tison Pugh afirma que “Se o final de ‘e viveram felizes para sempre’ – com sua promessa pós narrativa de felicidade conjugal e o prenúncio de bebês saltitantes adorados por pais amorosos – define a valência heteronormativa do conto de fadas como gênero, os livros de Oz não podem ser facilmente interpretados como uma réplica da dinâmica sexual e ideologicamente normativa desse texto. Ao empregar temas ‘queer-friendly’ e perturbar os papéis tradicionais de gênero em sua construção de uma utopia do mundo das fadas, e ao reimaginar a necessidade da heterossexualidade e da reprodução em sua crítica antissocial da normatividade, a estranheza dos livros de Oz ‘queeriza’ os fundamentos ideológicos e sexuais de um conto de fadas e mito.”

Se você se interessa pelo universo de Oz, acompanhe o NA-NU. A gente já vem há algum tempo realizando uma extensa pesquisa a respeito de toda história deste universo fantástico, suas principais adaptações, versões e spin-offs, além de seu impacto e relevância histórica, política e social. Ao longo dos próximos meses o NA-NU irá publicar esta pesquisa em uma série de textos aqui no blog e em vídeos em nosso canal do Youtube.
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